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sexta-feira, julho 07, 2006

Epifania 

Ontem, durante uma terrível insónia, enquanto visionava a excelente série americana Dawson’s Creek na TVI, tive uma epifania. Perguntar-me-ão "Mas o que é que interessa o que este gajo pensa?"; a resposta é óbvia, o que penso não tem qualquer interesse, contudo, e se ainda estão a ler, advirto que o esforço da leitura será (re)compensado. Poderão pensar, "mas epifania não é uma festa religiosa?"; também, mas não só. Epifania, e finalmente vejo recompensado o esforço de estudar James Joyce, é, sucintamente, a realização ou compreensão da essência ou significado de algo. Depois desta última frase, e após ter usado "Perguntar-me-ão", dirão "este gajo [parece que] sabe o que diz". Eu dir-vos-ei que é já a influência da epifania em mim a dar frutos, como mais à frente descobrirão. E reparem de novo, o uso de uma prolepse, e a noção do mesmo uso. Que bela insónia foi.

Esquecendo estas (meta)reflexões, passo a Dawson’s Creek. As interpretações parecem-me brilhantes, embora a dobragem, que supera claramente o original, me tenha impedido desfrutar completamente a performance destes actores. Mas o que mais me surpreendeu nesta série foi a loquacidade das personagens. Sendo esta série o reflexo da adolescência americana, ou pelo menos a imagem que os americanos têm da mesma, concluo que os adolescentes americanos são, sem dúvida, bastante eloquentes e autênticos filósofos. A espontaneidade dos diálogos, que me trás à memória os nada artificiais comentários desportivos do Jorge Gabriel, é espantosa. Vejamos um exemplo, uma jovem a dialogar "normalmente" com um amigo:

Joey(Sra. Tom Cruise): "Do you believe in magic? I never used to. I mean, how could I? 13, your mom dies, you hope against hope for magic, something to make it all better. It never comes, and, you know, you look to your father who's unable to overcome all of his tragic flaws. Well, no abracadabra there. And then there's Pacey. Well... any magic that was there, that ran out, didn't it? But, uh, then there's you. There's proof that someone out there is thinking of me... my friend who was with me always. It's pure magic."

O que me leva a concluir que existe um (ligeiro) declínio desta tremenda capacidade de expressão oral dos americanos ao longo da sua vida. Reparem na menor eloquência de George W. Bush, e com menos espontaneidade que as personagens da série, não esqueçamos que estas frases são pensadas pelo Presidente e pelo seu staff em demorados brainstorms:

"I tell people, let's don't fear the future, let's shape it." George W. Bush, Omaha, Neb., June 7, 2006

Que é feito dos heróis autênticos como Huckleberry Finn? Que espelho é esse onde os americanos se vêm? Vou, tal como eles, acreditar que a realidade é como "eu" quero que seja, para mim os adolescentes americanos continuam a ser Holden Caulfield(s).

"Anyway, I'm sort of glad they've got the atomic bomb invented. If there's ever another war, I'm going to sit right the hell on top of it. I'll volunteer for it, I swear to God I will." J.D. Salinger, The Catcher in the Rye, Chapter 18

Termino, e já imagino uns suspiros de alívio, com uma última (meta) consideração, reparem que a única citação que não está devidamente referenciada é a de Dawson’s Creek. Esta omissão é deliberada e tem o propósito de vos suscitar "insónias inconscientes". Se estiveram atentos ao que disse, estarão nesta altura a questonarem-se, "Mas então qual foi a epifania?", ao que respondo: isso é o que menos interessa, nada com um final aberto, onde o leitor escolhe o final que desejar.

Comments:
Ó, Dosty, eu cá pra mim tu tavas era todo chapado quando te deu a epifania...

Sejas lá o que andas a tomar, eu também quero!!!
 
chiclete...lol.marco começa-se a notar essa tua veia poética...
vejo que as aulas de literatura e de lcna estão a dar frutos nessa tua cabecinha...fazes bem. A série Dawson's creeck" é que não me agrada a 100%, mas devo de admitir que esta fala dá que pensar. É de facto muito interessante... bjos
 
O Mark Twain deve estar absolutamente orgulhoso destes rapazes. O próprio Mississipi corre-lhes na veia.
Bem, não sejamos tão rudes, a série está destinada à parva faixa etária MacDonaldiana que aprende a pintar lábios aos 9 anos de idade, por isso... Estou mais preocupado com o facto do meu colega de alemão ter visto o suficiente da série para publicar este irónico artigo :P

abraço
 
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